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Festival de Curtas 2006
“Acabou a Oficina – E Agora?”
“Acabou a Oficina – E Agora?”
Esse tipo de questionamento aflige toda uma geração de ex-alunos de Oficinas Culturais de inclusão social – principalmente as de audiovisual. Mesmo com a retomada do cinema nacional e os projetos de sensibilização e formação de público, esses novos profissionais têm tido grande dificuldade para encontrar seu espaço no mercado formal, seja por seu perfil diferenciado ou pela própria natureza do meio.
“Esse é um mercado muito competitivo, a absorção de novos profissionais está diretamente ligada ao talento, empenho e profissionalismo dos candidatos”, afirma Fernando Meirelles, cineasta e sócio da produtora O2 Filmes.
Outros diretores, como Rogério Moura e Ariane Porto, analisam o mercado de uma maneira mais ampla. Moura destaca que, graças ao desenvolvimento tecnológico, hoje há novas oportunidades. “O surgimento de novas mídias, como a Internet e os celulares que transmitem imagens, por exemplo, indicam que demanda sempre existirá, seja por projetos, seja por mão-de-obra”.
Ariane, que além de cineasta é diretora do Festival de Cinema Ambiental ECOCINE, ressalta que as técnicas audiovisuais não se restringem ao cinema. “Esses jovens, principalmente os das áreas mais técnicas, podem trabalhar no mercado de produção cultural como um todo – na produção de teatro e shows, por exemplo.” Ela também coordena uma série de oficinas de capacitação, em que trabalha diretamente na formação desses jovens. “Estou rodando um longa com mais de 200 pessoas formadas em nossas oficinas. Eles, em sua maioria, estão juntos desde o começo: fizeram as oficinas e foram ficando. O ambiente é muito bom, você acaba formando uma equipe mesmo. É como se trabalhássemos juntos há muito tempo”.
Moura, aliás, pode ser considerado um bom exemplo do sucesso das Oficinas. “Estou concluindo meu primeiro longa-metragem. Não fui aluno de nenhum curso superior de cinema, sou fruto de oficinas culturais de uma época que, em São Paulo, fervilhava esse tipo de atividade. Muitos dos que cursaram comigo estão hoje em dia trabalhando na área. No entanto, creio que eu deva ser o único vindo dessas oficinas que tenha estreado ou que esteja realizando um longa-metragem. Mas, como atualmente há mais disposição para o investimento em novas oficinas, tenho convicção de que em breve teremos muito mais ex-alunos de oficina estreando seus primeiros longas”, ponderou.
Os coordenadores dessas oficinas, no entanto, reconhecem os obstáculos enfrentados por esses novos profissionais. “Para os jovens participantes de oficinas audiovisuais que decidem continuar o processo de aprendizado e se inserir no mercado profissional audiovisual, muitas vezes a questão da expressão é o maior problema. A maioria dos jovens que participaram dessas oficinas estudaram em escolas públicas, que muitas vezes não oferecem um ensino de qualidade. Outros abandonaram os estudos muito antes de completar o ensino médio. Não é somente para ler e escrever que muitos desses jovens sentem dificuldade, mas também para conseguir uma boa expressão oral, que é de extrema importância nos procedimentos da produção audiovisual”, comenta Christian Saghaard, coordenador das Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual.
Uma das alternativas para driblar essas dificuldades iniciais e manter o instrumento de expressão é a formação de núcleos de produção independente. Só das Oficinas Kinoforum, surgiram quatro: Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo (Cohab Taipas); Filmagens Periféricas (Cidade Tiradentes); MUCCA – Mudança com Conhecimento, Cinema e Arte (Parque Santo Antônio) e Núcleo de Estudos e Realização Audiovisual Monte Azul (Monte Azul).
Mas a sobrevivência desses núcleos e seu desenvolvimento têm sido problemáticos. Apesar de parte deles ter conquistado o apoio financeiro da Prefeitura, os vídeos de sua autoria inscritos na Formação do Olhar este ano caiu, em comparação com os de 2004 e 2005. Para José Luiz Adeve, o Cometa, coordenador do Núcleo de Comunicação do Projeto Aldeia do Futuro, o diagnóstico é claro. “Falta suporte, apoio do primeiro e segundo setor, além de ampla divulgação dos resultados desses trabalhos. As perspectivas de inserção, nesse momento, parecem mais otimistas, inclusive com o advento da TV digital – e da decorrente multiplicação de emissoras e programações”.
Já Saghaard vê a questão por outra perspectiva. “Não acho que o fato do número de trabalhos audiovisuais ter diminuído significa uma queda de rendimento. Os núcleos ligados às Oficinas Kinoforum, por exemplo, têm realizado outros tipos de atividades, como projeções públicas, oficinas, gravações de casamentos, vídeos institucionais etc. Isso me parece um ótimo caminho para dar continuidade prática, e sobreviver financeiramente.“
Problemas domésticos
Muitas vezes, as dificuldades começam na própria oficina. Em paralelo à especialização técnica do curso, há uma série de questões relativas ao desenvolvimento pessoal do participante que não podem ser deixadas de lado. A falta de sincronia entre esses dois processos pode gerar uma falha na formação do indivíduo. “A formação técnica ajuda a colocar o jovem no mercado de trabalho, mas, isolada, não proporciona desenvolvimento pessoal, criatividade e autonomia”, ressalta Ariane Leal Montoro, psicóloga e educadora da ONG Cidade Escola Aprendiz.
“Na verdade, deve existir uma composição. Trazemos referências para os jovens, para ampliar seu universo cultural, para que eles saibam também qual é o ‘hegemônico’, mas com o devido cuidado para que eles não abandonem seus próprios códigos”, aponta Cometa. “Ao final do curso, os jovens estão mais dispostos a tomar iniciativas, ser protagonistas, desenvolver ações para geração de renda e ingressar no mundo do trabalho”.
O Núcleo de Comunicação do Projeto Aldeia do Futuro, coordenado por Cometa, foi formado em 2002, a partir de uma oficina de vídeo que produziu um documentário sobre as tribos Guarani M’bya de Parelheiros e Mongaguá. O filme foi enviado para uma fundação alemã, já parceira do Aldeia do Futuro, que disponibilizou verba para a criação do núcleo e de seu curso de Produção Audiovisual. “Nesse curso, trabalhamos não só a linguagem artística, mas também estimulamos as ações empreendedoras para geração de renda, disponibilizando equipamentos para os jovens. No último semestre do curso, também organizamos uma produtora”, explica Cometa. “No último ano, de 40 jovens capacitados, tivemos 12 inserções em produtoras e emissoras de TV, além de cinco em outras áreas, nas quais também utilizam o aprendizado em comunicação”.
As Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual têm formato semelhante. Criadas em 2001, como atividade paralela do Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo, que é dirigido por Zita Carvalhosa, o projeto engloba a exibição de curtas-metragens e a realização de oficinas de captação e edição de vídeo em várias comunidades e regiões de São Paulo e cidades próximas. “Por meio das oficinas, pretende-se desvendar novos olhares, universos e concepções de imagem, oriundos de grupos sociais que habitam essas regiões, que não têm acesso aos circuitos de produção e exibição do cinema brasileiro”, aponta Saghaard. “Alguns dos jovens que participaram das Oficinas formaram núcleos audiovisuais que estão em atividade, e outros estagiam ou trabalham no meio audiovisual no momento. Cerca de 20 participantes já atuaram como monitores da equipe pedagógica e de produção do próprio projeto. O que é muito positivo, mas tem que ser trabalhado para não criar expectativas frustrantes”.
“Um caminho possível para contribuir na formação mais completa desses jovens seria o de estabelecer parcerias com grupos e associações, inclusive universidades, que poderiam prepará-los para se expressar com mais desenvoltura no meio de trabalho escolhido”, destaca Saghaard.
Há outros formatos, como o proposto pelo projeto Trilhas Urbanas, da ONG Cidade Escola Aprendiz. “O projeto trabalha com diferentes linguagens na área de comunicação e arte. Há uma preocupação dos educadores de desenvolver o olhar do jovem, para a interpretação do mundo que o cerca, e ter uma postura crítica em relação a toda a mídia (TV, jornal, internet e rádio). A idéia é que eles possam conhecer e circular na cidade, aproveitando seus recursos culturais, tendo maior domínio de seus direitos e, acima de tudo, com prazer em aprender e conviver com as pessoas e com o bairro em que circulam”, completa a educadora Ariane Montoro. “Essas ações contribuem para que os adolescentes e suas famílias possam cuidar de si de forma mais autônoma”.
Essas experiências não se restringem a São Paulo. “O Projeto BH Cidadania foi lançado em agosto de 2003, e busca atrair jovens que se encontram à margem do sistema educacional e do mercado de trabalho. Para alcançá-los, a Fundação Municipal de Cultura desenvolve ações de sensibilização e iniciação artísticas, com o objetivo de contribuir para a sociabilização desses jovens”, afirma Sávio Leite, antigo coordenador do projeto. “Todos os alunos atendidos voltaram a freqüentar a escola e desenvolveram o seu senso crítico.” Mas ali, o problema mais urgente é manter as oficinas funcionando. “Infelizmente, em 2006 as oficinas do BH Cidadania foram reduzidas a duas comunidades, atendendo apenas a 20 jovens. A falta de continuidade dessas oficinas é um dos desafios para o futuro de uma juventude que quer chances de trabalho e meios de expressão”, aponta Sávio.
Muitas dessas dificuldades, tanto para a continuidade das oficinas como para o ingresso do jovem que as freqüentou no mercado de trabalho, poderiam ser amenizadas se as políticas para juventude do poder público fossem mais efetivas. “Não existem políticas públicas que contemplem as necessidades desses jovens. Principalmente porque a maioria incentiva um diálogo com a educação formal, e as escolas não estão dispostas a levar isso adiante”, afirma Cometa. A educadora Ariane Montoro aponta outra razão: “os jovens não demonstram interesse em participar de fóruns mais políticos. Penso que é uma questão cultural de um país com um histórico de corrupção e pouca participação democrática. A mudança dessa realidade é um processo muito lento”.
Uma das propostas mais objetivas nessa área é a inclusão de uma disciplina de Educação Audiovisual no currículo dos ensinos fundamental e médio (veja artigo na página XX). E isso é recebido com bons olhos no meio cinematográfico. “Acho que ensinar os jovens a assistir filmes e mesmo televisão é fundamental. Isso deveria ter sido implantado há mais tempo”, comenta Meirelles. Já Moura afirma que “o mundo tornou-se mais rápido. A base de raciocínio das pessoas, para o bem ou para o mal, é feita pelas imagens. Nada mais natural que o ensino do domínio dessa linguagem”. E a cineasta Ariane Porto destaca que “é importante discutir também o conteúdo do audiovisual, e não apenas seu formato. E essa disciplina pode ajudar a tornar o público em geral mais consciente e crítico”.
“Esse é um mercado muito competitivo, a absorção de novos profissionais está diretamente ligada ao talento, empenho e profissionalismo dos candidatos” Fernando Meirelles
“O surgimento de novas mídias, como a Internet e os celulares que transmitem imagens, por exemplo, indicam que demanda sempre existirá, seja por projetos, seja por mão-de-obra” Rogério Moura
“A falta de continuidade dessas oficinas é um dos desafios para o futuro de uma juventude que quer chances de trabalho e meios de expressão” Sávio Leite
EXPECTATIVAS E ATITUDE NO MERCADO
Começar no meio cinematográfico é difícil, mas não impossível. Alguns desses jovens têm conseguido boas oportunidades de trabalho no mercado formal. Aí, o desafio passa a ser outro: se adaptar ao ambiente mais rígido e hierarquizado de um set de filmagem. Isso porque parte desses jovens têm dificuldades para compreender a funçâo de um estagiário ou assistente em uma produção, muitas vezes bem diferente da que eles exerceram durante sua formação nas oficinas e ONGs, em que foram protagonistas das ações. Tudo isso gera confusão e, muitas vezes, frustração, tanto para o jovem como para quem o está contratando.
“Tenho um bom exemplo: um garoto do Rio, que foi ator em ‘Cidade de Deus’, pediu por muito tempo uma chance. Abrimos uma vaga para ele no departamento de arte. Depois de dois dias de trabalho, ele abandonou o set, dizendo que carregar mesas e armários não era o que ele gostava de fazer. Até o diretor de arte carrega mesas e armários. Impossível alguém ir para frente nesse mercado com uma atitude semelhante”, conta Fernando Meirelles.
Rogério Moura ressalta que essa confusão decorre das expectativas que parte desses jovens têm da profissão. “A primeira atitude que um futuro profissional deve ter é se perguntar se o que vai fazer é realmente aquilo que imaginava. Se o profissional quiser ingressar em qualquer área e só pensar no glamour, no oba-oba, mais cedo ou mais tarde abandonará a profissão e terá a amarga sensação de ter perdido seu tempo”.
Moura ainda destaca a importância do trabalho de todos em um set. “O produto audiovisual é todo feito por uma equipe. Até roteiros são escritos em equipe. Trabalhar em equipe é um dos principais aprendizados do estagiário ou assistente”, ressalta.
Cometa aponta como as oficinas podem trabalhar a questão: “além de reforçarmos a auto-estima, também precisamos estimular ações empreendedoras. Isso passa também por um ‘aprender a se relacionar’, pois para gerar renda e trabalhar, precisamos nos comunicar dentro de um código”.
Saghaard aponta ainda outra saída. “Muitos imaginavam que ao dirigirem um filme, ou vídeo, estariam a um passo de caminhar sobre o ‘tapete vermelho’ do cinema. Procuramos estimular o aprendizado de funções de assistência, para que o jovem possa assimilar com mais naturalidade suas obrigações num possível estágio ou trabalho futuro”, destaca o coordenador das Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual.
TRILHANDO UM CAMINHO PRÓPRIO
Os profissionais do mercado advertem que para trabalhar em audiovisual é preciso descer do salto alto e agarrar todas as oportunidades com vontade e dedicação. E o ex-aluno das Oficinas Kinoforum, Éder Augusto, comprova com seu exemplo que o caminho é esse mesmo.
Seu primeiro contato com o audiovisual foi nas Oficinas Kinoforum em 2003. Já no segundo módulo, surgiu uma oportunidade de trabalhar como monitor de sala do Festival Internacional de Curtas do mesmo ano. Aceitou. Logo depois, soube que a Mostra BR de Cinema estava abrindo vagas para pessoas com pouca experiência. Trabalhou também na Mostra, como assistente de projecionista. “Tem que aproveitar essas oportunidades, né?”.
Logo que concluiu a Oficina, ainda em 2003, Éder criou, com Vanice Deise, um núcleo independente de produção e difusão de vídeo – o Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo – em seu bairro, a Vila Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. Em seguida, tornou-se assistente da diretora Moira Toledo, que havia sido sua professora.
Já em 2004, foi chamado para trabalhar em um curta do diretor Christian Saghaard e, em paralelo, voltou às Oficinas como monitor. Nessa época, Éder já se dividia, trabalhando no curta durante a semana, e fazendo seus próprios trabalhos em seu tempo livre.
Acabou se envolvendo com a militância política e com o debate sobre políticas públicas para audiovisual, e teve contato com órgãos governamentais como a Secretaria Municipal de Cultura. Com isso, tomou conhecimento da abertura dos editais do VAI – Projeto de Valorização de Iniciativas Culturais da Prefeitura de São Paulo – e foi vencedor, com o Núcleo Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo, das edições 2005 e 2006.
Hoje, sua rotina é uma correria ainda maior. Ele trabalha em uma produtora, em que faz captação, edição e pós-produção de vídeo. Além disso, ganhou uma bolsa para um curso na Academia Internacional de Cinema, e está aproveitando para aprender mais. As atividades do núcleo, ele realiza durante a noite e aos finais de semana. “De noite, temos as reuniões pedagógicas e, no fim de semana, as oficinas. É uma correria. A coisa ruim disso tudo é que tive que abrir mão de fazer algo que gosto: não consigo mais produzir meus próprios projetos”, lamenta.
Com a verba das duas edições do VAI, Éder conseguiu comprar equipamentos para o Núcleo, e agora está conseguindo promover outras atividades culturais – passeios, visitas etc. – para seus alunos. “Seguimos fazendo as oficinas, com equipamentos adequados, e estamos começando a fechar os primeiros roteiros coletivos”, apontou.
Algumas medidas governamentais, no entanto, poderiam incentivar e facilitar o funcionamento de núcleos como o Arroz, Feijão, Cinema e Vídeo. “É necessário diminuir a burocracia para participar de editais públicos, e conseguir as verbas destinadas ao desenvolvimento de atividades culturais. Muitos grupos acabam excluídos desse processo por conta dos pré-requisitos e do excesso de documentos necessários. Ou se facilita para que mais pessoas jurídicas possam participar dessa disputa, ou se faz a distribuição dessa verba diretamente para pessoas físicas, por meio de análise de currículo e experiência”.
“Além disso, é preciso dividir melhor a fatia do bolo. Alguns recebem muito, outros recebem pouco. E os custos para trabalhar com audiovisual são altos, os equipamentos são caros. A verba que a Prefeitura libera para alguns curtas, por exemplo, daria para fazer cerca de 10 oficinas”, conclui Éder.






































