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Festival de Curtas 2007
O desafio de aprender ensinando
O desafio de aprender ensinando
Coordenadores de projetos sociais e de iniciativas populares que lidam com audiovisual falam das dificuldades, dos obstáculos e da realidade cotidiana de seu trabalho. Muitas experiências são comuns a todos e trocá-las pode ser uma maneira de aprimorar as atividades, sem perder a disposição
Embora haja um crescente interesse por atividades que promovam a transformação social por meio do audiovisual e ainda que a própria convivência com a comunicação geralmente estimule a atuação crítica dos profissionais, trabalhar em projeto social não costuma ser a primeira opção de carreira para quem escolheu viver de cinema.
Muitos profissionais não planejaram esse tipo de atuação ou mesmo nunca se prepararam psicológica e pedagogicamente para isso. Oficineiros, que começaram a participar por algum ideal, ou motivados por questões de responsabilidade social, ou, ainda, por iniciativa institucional, de governo, confirmam: foi errando que aprenderam. “Errando, não; patinando um pouco”, corrige Frederico Cardoso, um dos fundadores do Cinemaneiro, do Rio de Janeiro (RJ). Apesar das dificuldades, a vida continua e os projetos vão indo, geralmente bem. “É difícil mesmo, às vezes a gente não tem grana, mas porque tem muito carinho, as coisas dão muito certo”, define Tammy Weiss, coordenadora das Oficinas Querô, em Santos (SP). Nem só de amor e carinho são feitas as oficinas, porém. É preciso algum plano, algum método e, esse grande problema, sempre: dinheiro.
“Um problema? Recursos, com certeza...”A grande maioria dos oficineiros responde dessa maneira quando primeiro se pergunta sobre os problemas enfrentados no dia-a-dia. O audiovisual já não é uma ferramenta barata para se trabalhar, mas quando se fala de projetos voltados para a população de baixa renda, é preciso adicionar custos estratégicos: se não forem pagos alimentação e transporte para os participantes, é quase certo que haverá um índice de evasão muito acima do que já existe. “Nós iniciamos a oficina com um café da manhã, onde acontece o primeiro encontro entre equipe e alunos. Oferecemos também almoço e lanche, e como todos comem juntos, isso ajuda a termos uma evasão muito pequena entre os participantes e promove uma rápida integração entre os jovens (que vão formar grupos coletivos para realizarem os vídeos) e a equipe pedagógica da oficina”, diz Christian Saghaard, coordenador das Oficinas Kinoforum de Realização Audiovisual.
Quando se lida com adolescentes e jovens, principalmente, há o problema de se substituir a oficina por alguma outra atividade que gere renda. “Os adolescentes são cobrados para ter alguma atividade rentável, é difícil você convencer a pessoa de que
vale a pena usar o tempo com um curso de arte”, diz Luciano Coelho, do Projeto Olho
Vivo, de Curitiba (PR).
Não é o caso, também, de dizer que sem dinheiro não se faz nada; histórias de muita criatividade e vontade surgem e encantam em determinadas situações, como aconteceu com dois jovens participantes do Geração Futura, oficina mantida pelo Canal Futura no Rio de Janeiro (RJ), com financiamento da Fundação Roberto Marinho.
O orçamento do projeto não permite que seja pago nada além do transporte local e do lanche fornecido nos dias úteis para os participantes das oficinas, de acordo com a coordenadora Tatiana Azevedo, e por isso prioriza-se a participação de jovens que morem no Rio.
Porém, um dia chegaram as inscrições de dois projetos de Jaru (RO), de dois meninos de apenas 16 anos, Rafael e Henrique Jr. “Eu liguei e falei ‘não sei se dá para vocês virem’, mas eles disseram ‘não, a gente vai de qualquer forma!’”. Eles conseguiram
fazer com que a Câmara do Município pagasse a passagem para o Rio de Janeiro, que
a Escola pagasse a alimentação, e a própria Tatiana ajudou a achar hospedagem.
Dilemas humanos
Problemas não são só relativos à oficina ou ao projeto. Ao lidar com relações humanas, situações delicadas naturalmente se apresentam, como foi o caso de Luciano Coelho, em Curitiba. Um dia, seu celular sumiu na sede do Projeto, durante a realização de algumas atividades da oficina. “Me peguei pensando sobre como deveria agir diante
de uma criança que cresce num meio desses e rouba meu celular; como eu, adulto, com um passado mais favorecido, enfrentaria essa situação, comparando a minha infância com a infância dessa criança”, conta, considerando: “sim, eu tive raiva, isso foi mais um elemento”.
Na opinião de Luciano, talvez tivesse sido mais fácil lidar com a situação se ele tivesse alguma preparação na área de pedagogia ou psicologia. “Nem a experiência de ser pai eu tenho”, avalia, apontando outra questão: como lidar com o fato de que, às vezes, um aluno ou outro é, sim, preferido em relação a outro? “Não sei se existe isso de ter um filho preferido, mesmo, mas com os alunos, já me deparei com essa situação... isso é complexo”, diz.
Enfrentar problemas como esses, no en-tanto, não é a regra quando se trabalha com a população da favela. “Nós trabalhamos com 4 equipamentos de câmera completos com microfones externos, 4 computadores de edição, e muitas vezes a oficina acontece em favelas, pequenas sedes comunitárias. Só tivemos problemas com roubo de equipamento na época em que o PCC estava enfrentando o governo com seus ataques, e isso porque um aluno tinha gravado, sem querer, integrantes da organização, e eles tomaram a câmera para não serem reconhecidos”, conta Christian Saghaard.
Outra questão de fundo ético, enfrentada em Americanópolis (Grande São Paulo, SP), pelo coordenador Luiz Adeve, o Cometa, da Aldeia do Futuro, é o preconceito social dos jovens da periferia em relação aos “riquinhos”, universitários que costumam participar do projeto para auxiliar as atividades. “Pregamos a eles que não odeiem os mais ricos, os universitários que vêm aqui, e eles sacam que os playboys têm coisas bacanas, além das roupas e tudo mais.”
A falta de um referencial teórico e metodológico da área de pedagogia não chega a ser apontada como um obstáculo, mas al-guns oficineiros apontam que isso ajuda ou poderia ajudar bastante no desenvolvimento das atividades. “No início a gente sentia falta de um referencial teórico, mas com o estímulo de ver como funcionavam as coisas na prática, preservamos o que achamos mais importante: não desvincular o aprendizado do repertório das próprias pessoas”, afirma Luciano Coelho. Em Curitiba, o oficineiro buscava, com seus companheiros de projeto, referências em autores que acreditassem nisso – encontrou o roteirista Michael Rabiger, que, para ele, acrescentou a experiência de criar roteiros com base na própria experiência de vida do roteirista.
Bastante comum não só na área de vídeo, mas em outras experiências de comunicação realizadas pelas ONGs em geral, é o referencial da chamada Educomunicação, um método influenciado pela doutrina do educador Paulo Freire, que valoriza o “aprender junto com o fazer”.
As Oficinas Querô, que trabalham com apoio do Unicef, carregam consigo essa marca, e mantêm uma equipe de assessoria pedagógica para auxiliar a aplicação da metodologia. Com a mesma metodologia, também com assessoria pedagógica, trabalham os projetos Kabum! mantidos pelo Instituto Oi Futuro em três cidades: Recife, Rio de Janeiro e Salvador.
Organização interna
Para além da metodologia das oficinas, é preciso se organizar para funcionar. Dificuldades em relação ao espaço da ONG e da sustentabilidade do projeto, não só
no que diz respeito ao financiamento, são acumuladas das mais diversas maneiras nos projetos pelo país a fora.
Um exemplo prático sobre como as oficinas têm que se adaptar à realidade é o caso do Cinemaneiro. O projeto precisava se estabelecer em uma sede em uma determinada comunidade. Havia estrutura para isso, foi inclusive criada uma Oscip, a Cidadela, para encaminhar os procedimentos institucionais das oficinas, mas as atividades não puderam se estabelecer num ponto na própria favela. “A comunidade era dominada por três diferentes facções do tráfico, e não tinha um lugar intermediário, que fosse neutro para não ficar mais para um lado que de outro, então, ainda que o ideal fosse a sede ser na favela, teve que ser fora dela”, explica Frederico Cardoso. Organizar-se com a lógica de uma empresa, embora muitas vezes com princípios bem diferentes ao do mundo estabelecido, é preciso. Para Cometa, de Americanópolis (SP) e Jean Cardoso, da Kabum! de Salvador (BA), um dos passos mais importantes foi o estabelecimento de avaliações ao fim de cada atividade, para contabilizar os erros e acertos.
Vistas muitas vezes com resistência, as reuniões periódicas e a capacitação constante da equipe são práticas que podem ajudar muito no desenvolvimento de um projeto. Na Kabum! de Recife (PE), toda a semana os 15 profissionais da área de comunicação envolvidos nos trabalhos da escola se reúnem durante três ou quatro horas para “manter a avaliação constante do trabalho”, conforme descreve a coordenadora Michela Albuquerque. Nessas reuniões, os profissionais revêem e atualizam os documentos que contêm os conteúdos de cada núcleo de ensino (e não “disciplinas”, como se sugeriria numa escola tradicional, ela faz questão de ressaltar) e os planos de aulas, construídos coletivamente, de acordo com as orientações dos princípios básicos da ONG Auçuba e do Instituto Oi Futuro, financiador do projeto. “Nosso maior desafio, que é também um ponto positivo, é trabalhar em equipe com tantas pessoas e ainda topar rever cotidianamente nossos objetivos. Nossos projetos não são cristalizados, e o mais difícil em tudo isso é manter o campo de escuta ao jovem sempre aberto, porque é preciso lembrar sempre que o jovem faz parte do processo”, explica Michela.
Mudança total de rumos pela avaliação interna e a partir dos aprendizados é o resultado da experiência do Cinema Nosso, nascido como Nós do Cinema, após a experiência do filme “Cidade de Deus”, em 2001. Luís Carlos Nascimento, que conheceu o projeto quando ele foi criado, na situação de participante da oficina, hoje é um dos coordenadores gerais e diz: “nosso principal aprendizado é a mudança que está agora em curso. Estamos mudando nosso nome, criando um novo conceito. Quando começamos, nossa idéia era a de ocupar o espaço já instituído do cinema, mas nós percebemos que esse cinema não ia contemplar toda a nossa ação, e começamos a investigar o audiovisual como linguagem, transformando em ação pedagógica, transformando isso numa ação própria, particular. Com isso, conseguimos ampliar nossa ação social e pedagógica”.
Intercâmbios e parcerias
Assim como os jovens e a realidade, os desafios se renovam a cada dia, mas podem ser enfrentados com mais segurança quando se ganha experiência. Não é à toa que coordenadores têm pautado essas questões para os encontros entre realizadores, como é o caso da reunião do Fórum de Experiências Populares em Audiovisual (Fepa), neste Festival (v. págs 4 e 5). “Precisamos aproveitar esse clima de competição no ambiente de cinema, mas só para o lado benéfico, que diz respeito à qualidade da produção”, aponta Frederico Cardoso. “Nós trabalhamos com a perspectiva de buscar o maior número de parceiros para ajudar outras iniciativas e ver como os outros podem nos ajudar. Talvez essa iniciativa de tornar essas reuniões [entre os projetos] mais freqüentes seja o início da resolução desse problema”, avalia.
Na Programação do Festival:
Seminário 28/08 – Cinemateca – Sala Petrobras 14h às 18h – Palestra: Elaboração de Projetos Culturais e Audiovisuais
Agradecemos aos coordenadores de oficinas que nos concederam entrevistas para esta reportagem:
Beatriz Lindenberg – Instituto Marlin Azul - ES Cometa (Luis Adeve) - Aldeia do Futuro - SP Christian Saghaard - Associação Cultural Kinoforum - SP Frederico Cardoso - Cinemaneiro - RJ Guto Lima – Catavídeo - SC Jean Cardoso - Oi Kabum! - BA Luciano Coelho - Olho Vivo - PR Luís Carlos Nascimento - Cinema Nosso - RJ Luís Cláudio Lima – Núcleo Arte Grécia - RJ Michela Albuquerque – Oi Kabum! - PE Tammy Weiss – Oficinas Querô - SP Tatiana Azevedo - Geração Futura - RJ Wiliam Alves – Oficina de Imagem Popular - DF

