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Coletivo de Vídeo Popular
Educar ou Deseducar?
Carta do Fepa convocando a todos que tenham real interesse para a participação e construção de sua organização e interferências nas políticas públicas do audiovisual nacional.
EDUCAR OU DESEDUCAR?
Em relação às experiências populares em audiovisual, talvez tenhamos que nos deseducar para podermos nos conectar plenamente com as diversificadas e ousadas idéias e práticas audiovisuais nos campos da formação, da produção e difusão que pululam pelos quatro cantos do Brasil em comunidades quilombolas e indígenas, entre jovens das periferias dos grandes centros, entre trabalhadores do campo e da cidade e em inúmeros outros contextos com incontáveis outros atores e atrizes que divisam no audiovisual possibilidades estéticas singulares; possibilidades reflexivas e afirmativas de suas identidades; um instrumento que dá voz a atores e atrizes e visibilidade a contextos historicamente invisíveis; que contribue nos processos de empoderamento cultural e político de sujeitos; que subverte, enfim, de algum modo, as lógicas estruturadas e estruturantes de padronização social e de exclusão, violência e anulação dos que estão à margem. Uma produção que, na maioria dos casos, rompe com os padrões e modelos de realização que já estão estabelecidos e surge como uma nova perspectiva para o audiovisual brasileiro para além da tela do cinema.
Em relação à mobilização e organização de coletivos, associações e ong´s, essa questão também suscita provocações. Será que precisaremos nos educar para trabalhar coletivamente, respeitando as diferenças para nos aproximarmos pelo que temos em comum? Por que e para quê queremos e/ou precisamos nos organizar e mobilizar cada vez mais outros sujeitos? Quais são os nossos objetivos e para onde queremos caminhar?
Qual a melhor forma de organização para um fórum que se apresenta como um espaço para mobilização social e ação política? O FEPA deve almejar ser uma instância representativa do audiovisual popular? Quais as necessidades de se instituir representações? Quais os princípios que nos norteiam e quais são as nossas prioridades? Que relação desejamos manter com o Estado em todas as suas instâncias? Essas e outras questões ainda estão presentes nos que se encontraram no Festival Visões Periféricas, em julho de 2009, e que são integrantes do FEPA.
Concordamos que é necessário desenvolver formas cada vez mais participativas para avançarmos em questões muito mais simples que as colocadas anteriormente, inclusive. Ainda não conseguimos sequer organizar um Encontro Nacional do FEPA fora do eixo Rio de Janeiro e São Paulo. Concordamos que um fórum pode ter papel muito importante no desenvolvimento de ações coletivas, visto que nos permite estar em contato com tantos e diferentes lugares e que deve ser um espaço de troca de idéias, experiências e construção de pautas, demandas, diagnósticos acerca do audiovisual popular, e, portanto, com participação dos realizadores audiovisuais realmente populares, sejam exibidores, formadores, produtores e/ou distribuidores. Concordamos que para trazer novos participantes é necessário o fortalecimento de ações mobilizadoras nos estados, envolvendo outros indivíduos e coletivos.
Em quase três anos de existência, o FEPA alcançou resultados positivos, a partir de 03 encontros e debates em uma lista virtual: interlocução com a Secretaria de Audiovisual do Ministério da Cultura; um edital público de produção voltado exclusivamente para participantes e ex participantes de oficinas de formação em audiovisual na periferia; aproximação com outras entidades políticas do setor audiovisual; inserção em programas públicos de democratização do audiovisual; construção de um site colaborativo para servir de fonte de consulta e espaço de discussão entre as EPAS.
Contudo, avaliamos também que o período de três anos de FEPA é insuficiente para consolidarmos sua forma de organização e seus princípios. Ambos ainda estão em processo de construção. O formato de representação ainda está em debate. A forma de comunicação entre seus integrantes ainda está sendo experimentada. A fórmula para mobilizar e envolver cada vez mais sujeitos ainda não foi encontrada. Há um desejo de que todos participem e cumpram com os compromissos assumidos. É preciso uma postura participativa na construção coletiva, seja para frear o carro em alta velocidade, seja para acelerar ações que fortaleçam o movimento.
Não disputamos forças, não queremos poder, precisamos é nos mobilizar. Que todos participem e dêem uma chance à coletividade, para que o novo, o diferente dos modelos já experimentados possa nascer. Que os erros, acertos, equívocos e atropelos cometidos pela falta de maturidade do próprio movimento sejam o ponto de partida para um Fórum autônomo e independente, forte e maduro em suas proposições para a coletividade e para as experiências populares em audiovisual.
Durante esse processo, precisaremos nos educar ou nos deseducar?
Considerando todas essas reflexões e questões coletivas, que ainda estão em debate e construção, os coletivos, as entidades e os indivíduos presentes no último Festival Visões Periféricas fazem um chamamento àqueles que, por motivos e razões diversas, se desligaram do FEPA, para que voltem a integrar o Fórum ou a princípio retomemos nossas conversas, a fim de avaliarmos coletivamente os problemas levantados, na perspectiva de contribuir para a construção deste espaço.
Avaliamos que vivemos um momento marcado pelo pouco envolvimento dos membros do FEPA em todo o Brasil. Por isso, achamos fundamental convocar também todos os participantes deste Fórum para o desenvolvimento de um processo de avaliação geral e retomada de sua organização.
Para isso, acreditamos que a organização do Encontro Nacional do FEPA-Brasil seja pauta prioritária, para que juntos possamos debater o FEPA que temos e o FEPA que queremos; retomando as discussões iniciadas em 2008 (que culminaram na proposta dos GT's) e fazendo os ajustes e as reorientações que o coletivo avaliar necessárias dentro de um processo construído democraticamente.
Assinam essa carta:
Willian Alves (Associação Cultural Faísca - Brasília/DF)
Karina Moura (Centro de Com. e Cultura Popular Olho da Rua - Vila Velha/ES)
Marcos Rocha (Fábrica de Imagens - Fortaleza/CE)
Paula Kimo (Oficina de Imagens - Belo Horizonte/MG)
Jean Cardoso (Cipó Comunicação Interativa - Salvador/BA)
Márcio Blanco (Imaginário Digital - Rio de Janeiro/RJ)
Jaco Galdino (Movimento Cultural Arte Manha - Caravelas/BA)
Paulo Rodrigues (Manaus/AM)
Flávio Martins (Centro Social Futuro Feliz - Rio de Janeiro/RJ)
Wertemberg Nunes (Instituto Taboka Sul, Taboka Grande - Palmas/TO)
Antônio Gil (Centro de Cultura da Vila de Ponta Negra - Natal/RN)
Nonato Chacon (Ponto de Cultura A Bruxa tá solta - Boa Vista/RR)
José Maria (Argonautas Ambientalistas da Amazônia - Belém/PA)



