20 de Julho de 2010 às 09:54
Organização de cineclube e mostras em vídeo, por Alexandre Kishimoto
Autor: kinooikos
Nesta sessão pretende-se apresentar e refletir sobre os trabalhos envolvidos na organização de sessões de cineclube e mostras de filmes em vídeo. Neste primeiro artigo proponho uma discussão sobre o tipo de filme (ou vídeo) a ser exibido nestas sessões. Uma outra discussão, decorrente da primeira, diz respeito à atitude necessária ao programador de cineclube como pesquisador da cena do audiovisual. Outros artigos abordarão questões relacionadas com os processos de pesquisa, programação e exibição dos filmes e vídeos.
"O cinema brasileiro é estrangeiro em seu próprio país." Inicio a reflexão com esta frase de Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, professor de cinema e fundador da Cinemateca Brasileira. Décadas atrás ele já havia diagnosticado a dominação das salas de cinema do Brasil pelo filme estrangeiro (o norte-americano), tornando o cinema nacional desconhecido para a maioria dos brasileiros. Como todos sabem, nas últimas décadas esta situação só tem se agravado: o fechamento dos cinemas de rua, nos bairros das metrópoles e nas cidades do interior (anos 80), e a abertura das salas multiplex dos shoping-centers (década de 1990), elevou significativamente o preço do ingresso, afastando grandes parcelas da população do hábito de ir ao cinema, até então uma diversão popular. A partir daí, o contato destas pessoas com os filmes ficou restrito ao que é exibido na televisão e ao que é oferecido nas locadoras de vídeo do bairro, ou seja, para milhões de pessoas a apreciação dos filmes passou a acontecer apenas de forma privada (em casa).
Com a consolidação da televisão como o principal meio de comunicação no Brasil, e depois, com a formação do mercado do vídeo (VHS e DVD) e da televisão paga, esses outros espaços de difusão, que poderiam se tornar janelas alternativas ao audiovisual brasileiro, demonstraram serem o oposto: salvo raras exceções, os filmes exibidos na televisão são os mesmos que foram exibidos nas salas de cinema (os filmes de ficção norte-americanos) e nas locadoras de vídeo dos bairros este tipo de filme reina sozinho. Ou seja, a oferta de filmes na televisão e nas locadoras de vídeo reforça apenas o que já é oferecido no circuito das salas de cinema. Até nos camelôs de filmes em DVD, o que se encontra são estes mesmos filmes norte-americanos. O público torna-se assim cativo de uma referencia única.
Por outro lado, quando se olha para produção audiovisual como um todo, percebe-se que uma grande diversidade de formatos (curta e média metragens), gêneros (documentários, filmes experimentais, filmes de animação, videoclipes), propostas estéticas e modos de produção (independente, de centros de pesquisa, de oficinas de audiovisual, de grupos juvenis etc.), não encontra espaço no mercado do audiovisual. Essa diversidade inclui também produções de diferentes lugares do mundo (filmes latino-americanos, africanos, asiáticos, europeus) e de diferentes regiões do Brasil (filmes pernambucanos, paraibanos, catarinenses, amazônicos etc.). Ela é feita também dos filmes produzidos em diferentes épocas (filmes mudos, o Cinema Novo dos anos 1960, curtas gaúchos da década de 1980 etc.).
Diante do quadro de um circuito de salas comerciais de cinema que, por um lado, exclui milhões de pessoas que não podem pagar pelo ingresso, e que por outro, marginaliza a diversidade dos filmes e vídeos produzidos, os cineclubes em bairros das periferias urbanas (e em cidades do interior) surgem como uma das principais formas de democratização da produção audiovisual. Com isso, retomo a questão inicial: que tipo de filme ou vídeo exibir?
Certamente não há uma única resposta correta, vai depender principalmente do público a que as sessões se destinam e dos objetivos de seus organizadores. Mas a partir da reflexão sobre o tipo de filme ofertado pelo mercado do audiovisual, decorre uma primeira constatação: em contexto de cineclube, exibir o filme norte-americano do tipo 'arrasa-quarteirão', que as pessoas de algum modo já têm acesso pela televisão ou pela locadora de vídeo é 'chover no molhado', não acrescenta absolutamente nada a elas.
Um trabalho consistente de cineclube envolve, pelo contrário, um processo contínuo de formação e transformação de seu público freqüentador. A formação pode se dar, por exemplo, com a realização de discussões após as sessões, estimulando a apreciação crítica dos filmes exibidos. O cineclube tem o potencial de transformar o seu público na medida em que apresenta tipos de filmes e vídeos que ele desconhece, não tem contato direto, ampliando assim seu repertório cultural. Se este é o objetivo da ação, o foco da programação do cineclube passa a ser justamente o de apresentar o audiovisual em sua diversidade: curta-metragens, produções independentes, documentários, filmes brasileiros e de outros países etc.
Mas daí surge outra questão: onde encontrar esta diversidade de filmes e vídeos para exibi-los no cineclube da comunidade? Este conjunto está obviamente espalhado: nas mãos de seus realizadores e produtores, nas universidades e centros de pesquisa, em núcleos regionais de produção, em acervos de videotecas públicas e nos centros culturais da cidade.
Oportunidades privilegiadas de contato com essa diversidade são os festivais de cinema e vídeo que ocorrem anualmente em São Paulo. Para eles convergem os trabalhos produzidos por centenas de realizadores. Há festivais que selecionam filmes de acordo com o formato (Festival Internacional de Curta-metragens de SP) ou o local de origem (Mostra do Audiovisual Paulista), outros focalizam determinados gêneros (É tudo verdade - Festival Internacional de Documentários; Anima Mundi - Festival Internacional de Animação) ou ainda temas específicos (Festival do Cinema Judaico, Mix Brasil – Festival da Diversidade Sexual etc.). Além das sessões, os catálogos produzidos por estes festivais são fontes valiosas de informações sobre os filmes e contato de seus realizadores, facilitando pedidos de autorização para exibição destes em cineclubes, bem como para a presença dos realizadores nos debates.
Outras mostras de cinema, que ocorrem periodicamente em salas especiais e em centros culturais da cidade (Centro Cultural São Paulo, Cinusp, Cinemateca Brasileira, Centro de Cultura da Juventude, Centro Cultural Banco do Brasil) são também importantes possibilidades de contato com diferentes tipos de filmes. A entrada da maioria destas sessões das mostras e festivais é gratuita. Se os festivais anuais caracterizam-se por apresentar a diversidade da cena do audiovisual atual, isto é, uma amostra dos filmes e vídeo produzido no último ano, as mostras de centros culturais e das salas especiais trabalham com o repertório de filmes produzidos em diferentes épocas. Não raro é possível assistir numa mesma mostra vários filmes de um mesmo realizador (retrospectivas) ou filmes de diferentes épocas que abordam um tema comum. A história do audiovisual é, portanto, outra fonte valiosa para a programação de cineclube.
Do que foi dito destaco que o programador de cineclube precisa estar atento à cena do audiovisual da cidade, acompanhando sempre que possível a programação das mostras e festivais dos centros culturais e salas especiais, assistindo aos filmes brasileiros recém-lançados, pesquisando informações em diferentes fontes (jornais, Internet, livros etc.). Ao seu interesse pelo cinema como espectador, o programador deve agregar um gosto pela investigação sistemática, em descobrir filmes e vídeo que não estão imediatamente acessíveis. Precisa ampliar incessantemente seu próprio repertório cultural, a fim de estabelecer esta ponte entre a pluralidade da produção audiovisual (local, nacional e internacional) e o público de sua comunidade.
Alexandre Kishimoto - Mestrando do Programa de Pós Graduação em Antropologia Social (FFLCH/USP), atuou como um dos coordenadores do projeto Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas (Ação Educativa). Organizou mostras de cinema brasileiro em escolas públicas da Zona Leste de São Paulo, pela Secretaria de Cultura de Guarulhos e no Centro de Cultura da Juventude (CCJ - PMSP). Atualmente atua na programação de cineclube do Espaço Cultural Resistência e Ousadia (Taboão da Serra).
"O cinema brasileiro é estrangeiro em seu próprio país." Inicio a reflexão com esta frase de Paulo Emílio Salles Gomes, crítico, professor de cinema e fundador da Cinemateca Brasileira. Décadas atrás ele já havia diagnosticado a dominação das salas de cinema do Brasil pelo filme estrangeiro (o norte-americano), tornando o cinema nacional desconhecido para a maioria dos brasileiros. Como todos sabem, nas últimas décadas esta situação só tem se agravado: o fechamento dos cinemas de rua, nos bairros das metrópoles e nas cidades do interior (anos 80), e a abertura das salas multiplex dos shoping-centers (década de 1990), elevou significativamente o preço do ingresso, afastando grandes parcelas da população do hábito de ir ao cinema, até então uma diversão popular. A partir daí, o contato destas pessoas com os filmes ficou restrito ao que é exibido na televisão e ao que é oferecido nas locadoras de vídeo do bairro, ou seja, para milhões de pessoas a apreciação dos filmes passou a acontecer apenas de forma privada (em casa).
Com a consolidação da televisão como o principal meio de comunicação no Brasil, e depois, com a formação do mercado do vídeo (VHS e DVD) e da televisão paga, esses outros espaços de difusão, que poderiam se tornar janelas alternativas ao audiovisual brasileiro, demonstraram serem o oposto: salvo raras exceções, os filmes exibidos na televisão são os mesmos que foram exibidos nas salas de cinema (os filmes de ficção norte-americanos) e nas locadoras de vídeo dos bairros este tipo de filme reina sozinho. Ou seja, a oferta de filmes na televisão e nas locadoras de vídeo reforça apenas o que já é oferecido no circuito das salas de cinema. Até nos camelôs de filmes em DVD, o que se encontra são estes mesmos filmes norte-americanos. O público torna-se assim cativo de uma referencia única.
Por outro lado, quando se olha para produção audiovisual como um todo, percebe-se que uma grande diversidade de formatos (curta e média metragens), gêneros (documentários, filmes experimentais, filmes de animação, videoclipes), propostas estéticas e modos de produção (independente, de centros de pesquisa, de oficinas de audiovisual, de grupos juvenis etc.), não encontra espaço no mercado do audiovisual. Essa diversidade inclui também produções de diferentes lugares do mundo (filmes latino-americanos, africanos, asiáticos, europeus) e de diferentes regiões do Brasil (filmes pernambucanos, paraibanos, catarinenses, amazônicos etc.). Ela é feita também dos filmes produzidos em diferentes épocas (filmes mudos, o Cinema Novo dos anos 1960, curtas gaúchos da década de 1980 etc.).
Diante do quadro de um circuito de salas comerciais de cinema que, por um lado, exclui milhões de pessoas que não podem pagar pelo ingresso, e que por outro, marginaliza a diversidade dos filmes e vídeos produzidos, os cineclubes em bairros das periferias urbanas (e em cidades do interior) surgem como uma das principais formas de democratização da produção audiovisual. Com isso, retomo a questão inicial: que tipo de filme ou vídeo exibir?
Certamente não há uma única resposta correta, vai depender principalmente do público a que as sessões se destinam e dos objetivos de seus organizadores. Mas a partir da reflexão sobre o tipo de filme ofertado pelo mercado do audiovisual, decorre uma primeira constatação: em contexto de cineclube, exibir o filme norte-americano do tipo 'arrasa-quarteirão', que as pessoas de algum modo já têm acesso pela televisão ou pela locadora de vídeo é 'chover no molhado', não acrescenta absolutamente nada a elas.
Um trabalho consistente de cineclube envolve, pelo contrário, um processo contínuo de formação e transformação de seu público freqüentador. A formação pode se dar, por exemplo, com a realização de discussões após as sessões, estimulando a apreciação crítica dos filmes exibidos. O cineclube tem o potencial de transformar o seu público na medida em que apresenta tipos de filmes e vídeos que ele desconhece, não tem contato direto, ampliando assim seu repertório cultural. Se este é o objetivo da ação, o foco da programação do cineclube passa a ser justamente o de apresentar o audiovisual em sua diversidade: curta-metragens, produções independentes, documentários, filmes brasileiros e de outros países etc.
Mas daí surge outra questão: onde encontrar esta diversidade de filmes e vídeos para exibi-los no cineclube da comunidade? Este conjunto está obviamente espalhado: nas mãos de seus realizadores e produtores, nas universidades e centros de pesquisa, em núcleos regionais de produção, em acervos de videotecas públicas e nos centros culturais da cidade.
Oportunidades privilegiadas de contato com essa diversidade são os festivais de cinema e vídeo que ocorrem anualmente em São Paulo. Para eles convergem os trabalhos produzidos por centenas de realizadores. Há festivais que selecionam filmes de acordo com o formato (Festival Internacional de Curta-metragens de SP) ou o local de origem (Mostra do Audiovisual Paulista), outros focalizam determinados gêneros (É tudo verdade - Festival Internacional de Documentários; Anima Mundi - Festival Internacional de Animação) ou ainda temas específicos (Festival do Cinema Judaico, Mix Brasil – Festival da Diversidade Sexual etc.). Além das sessões, os catálogos produzidos por estes festivais são fontes valiosas de informações sobre os filmes e contato de seus realizadores, facilitando pedidos de autorização para exibição destes em cineclubes, bem como para a presença dos realizadores nos debates.
Outras mostras de cinema, que ocorrem periodicamente em salas especiais e em centros culturais da cidade (Centro Cultural São Paulo, Cinusp, Cinemateca Brasileira, Centro de Cultura da Juventude, Centro Cultural Banco do Brasil) são também importantes possibilidades de contato com diferentes tipos de filmes. A entrada da maioria destas sessões das mostras e festivais é gratuita. Se os festivais anuais caracterizam-se por apresentar a diversidade da cena do audiovisual atual, isto é, uma amostra dos filmes e vídeo produzido no último ano, as mostras de centros culturais e das salas especiais trabalham com o repertório de filmes produzidos em diferentes épocas. Não raro é possível assistir numa mesma mostra vários filmes de um mesmo realizador (retrospectivas) ou filmes de diferentes épocas que abordam um tema comum. A história do audiovisual é, portanto, outra fonte valiosa para a programação de cineclube.
Do que foi dito destaco que o programador de cineclube precisa estar atento à cena do audiovisual da cidade, acompanhando sempre que possível a programação das mostras e festivais dos centros culturais e salas especiais, assistindo aos filmes brasileiros recém-lançados, pesquisando informações em diferentes fontes (jornais, Internet, livros etc.). Ao seu interesse pelo cinema como espectador, o programador deve agregar um gosto pela investigação sistemática, em descobrir filmes e vídeo que não estão imediatamente acessíveis. Precisa ampliar incessantemente seu próprio repertório cultural, a fim de estabelecer esta ponte entre a pluralidade da produção audiovisual (local, nacional e internacional) e o público de sua comunidade.
Alexandre Kishimoto - Mestrando do Programa de Pós Graduação em Antropologia Social (FFLCH/USP), atuou como um dos coordenadores do projeto Cinema e Vídeo Brasileiro nas Escolas (Ação Educativa). Organizou mostras de cinema brasileiro em escolas públicas da Zona Leste de São Paulo, pela Secretaria de Cultura de Guarulhos e no Centro de Cultura da Juventude (CCJ - PMSP). Atualmente atua na programação de cineclube do Espaço Cultural Resistência e Ousadia (Taboão da Serra).
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