19 de Ago. de 2010 às 13:39
Pesquisar e programar filmes
Autor: William Hinestrosa
Ao participar de um projeto de exibição, seja um festival ou cineclube, uma das ferramentas mais adequadas para elaborar uma programação de filmes é a paixão por cinema. É importante compreender que o envolvimento dos participantes de uma iniciativa que consiste em exibir filmes, é também uma relação estreita dessas pessoas com o conhecimento e pesquisa de cinematografias. A cinefilia é estimuladora para promover diversidade e consistência numa programação.
A virtude principal de um cinéfilo está no hábito constante de ver filmes, o que leva a um aprimoramento do olhar. O resultado é a ampliação de critérios para a avaliação dos filmes escolhidos para serem exibidos, promovendo sessões mais afinadas com o objetivo que se deseja alcançar, seja para a reflexão e debate, seja para o entretenimento.
Com esses três pilares: objetivos bem definidos acerca das ações do projeto de exibição, assistir a filmes com regularidade e permitir critérios variados para a escolha de filmes; é possível lançar bases sólidas para construir programações capazes de estimular a formação de público, colaborar na difusão de obras audiovisuais e consolidar a continuidade do projeto.
A tela de exibição é uma janela que ao ser aberta, provoca em seus espectadores pontos de vista individuais e com intensidades diferentes. Torna-se interessante elaborar programações que estimulem tanto o entretenimento quanto o senso crítico. E tudo isso parte da concepção dos objetivos do projeto, que precisam levar em conta a sua relação com o espaço e o público, principalmente acreditando que as exibições não fornecerão soluções aos problemas cotidianos dos espectadores e sim estimularão um processo cultural através da sensibilidade e liberdade de pensamento.
Quando o projeto de exibição é coordenado por um grupo, os objetivos podem ser debatidos antes de qualquer ação e avaliados conforme o envolvimento de cada um. A seriedade de um projeto e a sua continuidade se estabelecem nos comprometimentos que cada um de seus participantes mantém ao longo de todo o processo.
A formação se fortalece através do exercício constante de ver filmes, seja no cinema, em festivais, pela internet ou TV. Isso exige acompanhar de perto as programações das salas de exibição, dos canais de televisão, calendários de mostras e utilizar a internet como instrumento de pesquisa de primeira necessidade, pois por meio dela é possível não somente ter acesso a mais filmes como também pesquisar sobre carreiras de diretores, história do cinema, criticas especializadas e reflexões contemporâneas. Todas essas informações amadurecem o pensamento e a sensibilidade de um programador de filmes.
Outra sugestão é expandir as áreas do conhecimento, uma das características que se pode verificar no século XXI são os hibridismos das diversas manifestações artísticas, as quais conversam e interagem expressivamente com o audiovisual. É importante verificar a necessidade de um aperfeiçoamento do olhar e da sensibilidade, pois avaliar filmes requer discussões que vão além de critérios como “gostei – não gostei”, é preciso debater através de bases amplas, reconhecer em cada filme peculiaridades técnicas e de conteúdo.
Freqüentar festivais, mostras, outros projetos de exibição e cineclubes, contribui significativamente para conhecer novas e antigas produções e também ampliar a rede de contatos, pois esses espaços funcionam como congressos onde se reúnem pessoas de interesses comuns e que possibilitam a troca de experiências. O Guia Kinoforum de Festivais traz anualmente uma lista de festivais e de outras iniciativas ligadas ao audiovisual: www.kinoforum.org.br/guia
Quando os propósitos de um projeto de exibição estão devidamente desenhados e claros junto aos responsáveis pela programação, a escolha de filmes se torna mais objetiva. Em torno das opções que se possui para programar, o primeiro passo é buscar conceber os efeitos que as sessões poderão produzir junto aos espectadores.
Um exemplo: o filme é comédia romântica, narrativa convencional com início, meio e fim. Porém a personagem principal é uma mãe solteira com um filho adolescente, e em algum momento da história a mãe não aprova o relacionamento de seu filho com uma mulher mais velha. Acredito que esse ponto específico do roteiro pode promover reflexões interessantes se houver alguma discussão em torno dele após o filme. Por outro lado, essa questão pode ser totalmente irrelevante se o projeto de exibição é voltado para discussão em torno da linguagem cinematográfica. Cabe aos programadores verificar quais valores podem se agregar a cada filme.
É importante que o trabalho não seja uma imposição de conhecimento, pode ser um passo em falso se um programador considerar que seu trabalho influenciará diretamente no pensamento dos espectadores. Um filme, como toda obra de arte, permite explorar a sensibilidade e a reflexão de maneiras muito individuais, e é o conflito de idéias que promove resultados mais incisivos para que a liberdade de pensamento seja um norteador de mudanças tanto pessoais quanto coletivas.
Durante a programação de sessões, é saudável se o debate entre os programadores estiverem baseados em critérios amplos, a subjetividade pode estar presente, porém ela não pode minar uma discussão de idéias. Justamente para a ampliação dos critérios de avaliação, que a pesquisa e o conhecimento se fazem valer. Um debate em torno de um filme pode, por exemplo, sair da questão cinematográfica e entrar numa discussão ética, na qual não se discute mais se o filme é bem realizado ou não, e sim como foi a abordagem do diretor sobre determinado tema.
A experiência traz a excelência, um programador precisa arriscar sempre e nunca subestimar os espectadores, o pensamento “o público não entende tal coisa” é perigoso. Desse modo, se uma pesquisa é sólida e se o debate para chegar a uma programação é rico, o resultado será proveitoso, pois fornecerá consistência ao projeto e isso é um importante passo para a sua continuidade.
A virtude principal de um cinéfilo está no hábito constante de ver filmes, o que leva a um aprimoramento do olhar. O resultado é a ampliação de critérios para a avaliação dos filmes escolhidos para serem exibidos, promovendo sessões mais afinadas com o objetivo que se deseja alcançar, seja para a reflexão e debate, seja para o entretenimento.
Com esses três pilares: objetivos bem definidos acerca das ações do projeto de exibição, assistir a filmes com regularidade e permitir critérios variados para a escolha de filmes; é possível lançar bases sólidas para construir programações capazes de estimular a formação de público, colaborar na difusão de obras audiovisuais e consolidar a continuidade do projeto.
OBJETIVOS CLAROS E DEFINIDOS
O ponto inicial é que os responsáveis em levar adiante um projeto de exibição definam os reais objetivos para tal empreitada. É comum a preocupação em formar público e levar cinema a quem não tem acesso, associando ao projeto uma função social, esse aspecto é pertinente e contribui significativamente suprindo lacunas culturais em alguns bairros ou comunidades. Por outro lado, é necessário ter precauções para que o projeto não se encerre nessa função, os objetivos também devem ser motivados pelas múltiplas possibilidades que o cinema permite tanto socialmente quanto culturalmente.A tela de exibição é uma janela que ao ser aberta, provoca em seus espectadores pontos de vista individuais e com intensidades diferentes. Torna-se interessante elaborar programações que estimulem tanto o entretenimento quanto o senso crítico. E tudo isso parte da concepção dos objetivos do projeto, que precisam levar em conta a sua relação com o espaço e o público, principalmente acreditando que as exibições não fornecerão soluções aos problemas cotidianos dos espectadores e sim estimularão um processo cultural através da sensibilidade e liberdade de pensamento.
Quando o projeto de exibição é coordenado por um grupo, os objetivos podem ser debatidos antes de qualquer ação e avaliados conforme o envolvimento de cada um. A seriedade de um projeto e a sua continuidade se estabelecem nos comprometimentos que cada um de seus participantes mantém ao longo de todo o processo.
PESQUISA
Desenvolver a cinefilia é um aspecto relevante para programar sessões. A formação de um repertório ao programador é fundamental, o conhecimento traz um rigor e qualidade para o planejamento de sessões levando a uma elaboração com mais ousadia em torno dos filmes escolhidos. O programador precisa estar em constante processo de formação.A formação se fortalece através do exercício constante de ver filmes, seja no cinema, em festivais, pela internet ou TV. Isso exige acompanhar de perto as programações das salas de exibição, dos canais de televisão, calendários de mostras e utilizar a internet como instrumento de pesquisa de primeira necessidade, pois por meio dela é possível não somente ter acesso a mais filmes como também pesquisar sobre carreiras de diretores, história do cinema, criticas especializadas e reflexões contemporâneas. Todas essas informações amadurecem o pensamento e a sensibilidade de um programador de filmes.
Outra sugestão é expandir as áreas do conhecimento, uma das características que se pode verificar no século XXI são os hibridismos das diversas manifestações artísticas, as quais conversam e interagem expressivamente com o audiovisual. É importante verificar a necessidade de um aperfeiçoamento do olhar e da sensibilidade, pois avaliar filmes requer discussões que vão além de critérios como “gostei – não gostei”, é preciso debater através de bases amplas, reconhecer em cada filme peculiaridades técnicas e de conteúdo.
Freqüentar festivais, mostras, outros projetos de exibição e cineclubes, contribui significativamente para conhecer novas e antigas produções e também ampliar a rede de contatos, pois esses espaços funcionam como congressos onde se reúnem pessoas de interesses comuns e que possibilitam a troca de experiências. O Guia Kinoforum de Festivais traz anualmente uma lista de festivais e de outras iniciativas ligadas ao audiovisual: www.kinoforum.org.br/guia
PROGRAMAR FILMES
O exercício de um programador de filmes é como o trabalho de um investigador em um caso policial, a cena do crime (o filme) tem seu apelo visual, mas na investigação surgem outros elementos que dão a essa cena alguns valores para se chegar a uma conclusão. Programar filmes é ir atrás desses elementos e verificar as potencialidades de cada obra, claro que há exceções, mas é providencial não subestimar.Quando os propósitos de um projeto de exibição estão devidamente desenhados e claros junto aos responsáveis pela programação, a escolha de filmes se torna mais objetiva. Em torno das opções que se possui para programar, o primeiro passo é buscar conceber os efeitos que as sessões poderão produzir junto aos espectadores.
Um exemplo: o filme é comédia romântica, narrativa convencional com início, meio e fim. Porém a personagem principal é uma mãe solteira com um filho adolescente, e em algum momento da história a mãe não aprova o relacionamento de seu filho com uma mulher mais velha. Acredito que esse ponto específico do roteiro pode promover reflexões interessantes se houver alguma discussão em torno dele após o filme. Por outro lado, essa questão pode ser totalmente irrelevante se o projeto de exibição é voltado para discussão em torno da linguagem cinematográfica. Cabe aos programadores verificar quais valores podem se agregar a cada filme.
É importante que o trabalho não seja uma imposição de conhecimento, pode ser um passo em falso se um programador considerar que seu trabalho influenciará diretamente no pensamento dos espectadores. Um filme, como toda obra de arte, permite explorar a sensibilidade e a reflexão de maneiras muito individuais, e é o conflito de idéias que promove resultados mais incisivos para que a liberdade de pensamento seja um norteador de mudanças tanto pessoais quanto coletivas.
Durante a programação de sessões, é saudável se o debate entre os programadores estiverem baseados em critérios amplos, a subjetividade pode estar presente, porém ela não pode minar uma discussão de idéias. Justamente para a ampliação dos critérios de avaliação, que a pesquisa e o conhecimento se fazem valer. Um debate em torno de um filme pode, por exemplo, sair da questão cinematográfica e entrar numa discussão ética, na qual não se discute mais se o filme é bem realizado ou não, e sim como foi a abordagem do diretor sobre determinado tema.
A experiência traz a excelência, um programador precisa arriscar sempre e nunca subestimar os espectadores, o pensamento “o público não entende tal coisa” é perigoso. Desse modo, se uma pesquisa é sólida e se o debate para chegar a uma programação é rico, o resultado será proveitoso, pois fornecerá consistência ao projeto e isso é um importante passo para a sua continuidade.






Chico Farro:
1 anos atrás
William, texto pertinente, direto e esclarecedor. Muito bom mesmo. Parabéns! Luz e paz profunda!